Página inicial | 11 de dezembro - terça-feira »
10 de dezembro - segunda-feira
Por Neusa Paes Leme | 10 de dezembro de 2007
A pesquisa brasileira na Antártica
O Brasil realiza pesquisas na Antártica em todas as áreas de conhecimento: geoespaço, atmosfera, biologia, geologia, glaciologia, oceanografia, química e tecnologia. Estes estudos são realizados em diversos locais em função do objetivo de estudo e da região de interesse.
A primeira operação Antártica ocorreu em 1982 - neste ano comemoramos 25 anos da presença do Brasil na Antártica - quando algumas pesquisas na área de Ciências da Atmosfera, Oceanografia e Meteorologia foram realizadas nos navios de apoio oceanográfico Barão de Teffé, operada pela Marinha do Brasil, e Professor Besnard, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.
A Estação Antártica Comandante Ferraz foi inaugurada em 1984, dando início às atividades científicas e qualificando o Brasil para ser membro consultivo do Tratado Antártico.
A operação Antártica 26 teve início em outubro de 2007, com a saída do navio Ary Rongel do Rio de Janeiro, rumo à Antártica. O navio deverá permancer na região até março de 2008.
Operação Antártica 26
São 19 projetos envolvidos e mais de 200 participantes nesta operação. Clique aqui para visualisar o documento com as atividades que serão realizadas.
Ao sair do Brasil, o navio contou com a presença de pesquisadores na área de oceanografia, que realizaram estudos das correntes oceânicas, de salinidade, temperatura, estudo dos fitoplanctons, relação oceano x atmosfera e seqüestro de carbono. Estes estudos abrangeram desde a costa brasileira até a Península Antártica.
Na área biológica, pesquisas com coletas de sedimentos, microorganismos e aves estão sendo desenvolvidas em diversas ilhas em torno da península antártica.
Neste momento estamos com 3 acampamentos em andamento:
- na Ilha Elefante, para o censo dos elefantes marinhos, para o estudo da biodiversidade e microorganismos;
- na Ilha Rei George, para estudo da biodiversidade;
- em Ponta Henniken, na Peninsula Antártica, com estudos de galaciologia. Testemunhos de gelo estão sendo coletados para o estudo da atmosfera e o acompanhamento do degelo na região está sendo monitorado para avaliar o impacto do efeito estufa nesta região.
O pessoal dos acampamentos está bem e em contato com a estação todos os dias.
Na Estação Comandante Ferraz
A Estação Ferraz é privilegiada em água doce: possui dois lagos próximos com água de degelo, de boa qualidade (ou seja, não é contaminada pela presença de animais e aves). Estes foi um dos motivos da SECIRM ter escolhido o local.
As atividades dos projetos aqui em Ferraz estão caminhando lentamente devido à limitação dos deslocamentos externos e à falta de água.
A água é captada por bombas e levada por canos térmicos até a caixa d’água dentro da estação. Nunca tivemos problemas de abastecimento… até este ano. Mesmo no inverno, quando os lagos congelam mais de 50%, nunca faltou água.
O inverno de 2007, no entanto, foi o mais forte dos últimos 20 anos. Em julho, o pessoal da Marinha responsável pela manutenção da Estação (grupo Base) observou que o lago estava congelando rapidamente e sugeriu que a água fosse monitorada. Infelizmente, em outubro os dois lagos congelaram 100%.
É ironico ter tanta água em torno, mas só na forma sólida!!!
Com a temperatura negativa e o solo congelado, os lagos ainda permanecem congelados. A previsão de degelo é para janeiro. Como Ferraz não possui desanilizador (como os do navio), optamos por derreter neve.
Foram inúmeras as idéias: usar microondas, usar cintas térmicas, aquecer no fogão, etc… A solução foi colocá-la em caixas plásticas (marfinites) que vem com os alimentos, e deixá-la derreter. O processo é lento e ocupa um bom espaço. Nossa unidade de medida passou a ser a caixa plástica. Cabe em torno de 130 litros de água (0,80 m x 0,60 m). Cheia de neve, dá aproximadamente 30 litros.
Todos ajudam na coleta de neve para fazer água. Para prevenir contaminação pela presença de animais, como focas, aves e pingüins, a água é clorada. Esta água é usada para lavar louça, banheiros e para tomar banho.
A água para cozinhar é fornecida pelo navio, que nem sempre fica ná área. Neste momento, por exemplo, ele está retornando de Ushuaia, onde foi buscar material para a estação, comida, material de pesquisa e de manutenção. Este ano devido ao número muito elevado de participantes (no inverno estavam 30 pessoas e agora, no verão, são 60!!!), uma parte da carga veio por terra até Ushuaia e Punta Arenas.
Ah… para beber, a água é mineral.Estamos com um surto de gripe na estação e a preocupação é com a higiene
da cozinha e banheiros. Um especialista em gripe aviária e a médica estão cuidando da distribuição do cloro nas águas armazenadas nas marfinites. Embora a neve esteja sendo recolhida de locais limpos, a presença das aves e pingüins é sempre um risco.
Projetos em andamento
Hoje, pela primeira vez o bote saiu com a equipe de dois projetos de biologia cujo foco de estudo são os peixes antárticos. Foram lançar rede e tentar pescar em frente ao refúgio eqüatoriano que fica do outro lado da Baia do Almirantado, onde se encontra Ferraz.
Desde a nossa chegada no início de dezembro o tempo esteve muito ruim, ontem e hoje estamos com pouco vento e céu aberto. A temperatura média do dia foi 0,2 graus Celsius e a sensação térmica de - 4 graus.
A equipe do projeto de solos está tendo dificuldades para instalar os equipamentos que vão medir o fluxo de carbono, uma vez que o solo ainda está muito congelado e com muita neve.
Os especialitas em aves e vírus já coletaram bastante material dos pingüins e aguardam a vinda de mais Skuas para a coleta de amostras. Como as aves que habitam esta região são migratórias e percorrem todo o globo, o vírus da gripe aviária está sendo monitorado para ver se alguma espécie está contaminada ou é hospedeira do vírus.
Outro estudo muito interessante é o fundo da baía. Uma equipe desenvolveu um robô para filmar debaixo da água. Os primeiros testes foram realizados com sucesso. O projeto que estuda sedimentos do fundo do mar para monitorar esteróis, que são indicadores de atividades orgânicas para avaliar as mudanças ambientais e da biodiversidade, coletou sedimentos a uma profundidade de 100 metros na Ilha Pingüim e Deception. O material coletado pode trazer informações de mais de 100 anos do ambiente.
Os projetos da atmosfera estão caminhando bem. A calibração internacional
dos equipamentos que medem ozônio e radiação UV, realizada em Punta
Arenas, foi concluída com sucesso e a instrumentação já retornou à Ferraz e ao Brasil. Todos os instrumentos que estavam no Brasil e na Bolívia também
foram calibrados e estão operando normalmente. O buraco de ozônio já
fechou, mas foi bastante ativo nesta primavera. Embora tenha sido 15%
menor que o ano passado, sua extensão ainda foi muito grande e atingiu
novamente a América do Sul. Sobre Ferraz a redução da concentração de
ozônio foi de 50%, o que é muito. A radiação UV teve um aumento de 300%.
O sol está sendo monitorado. Pequenas explosões solares foram detectadas, mas não foi registrada nenhuma atividade significativa neste período. Monitorar as explosões solares é muito importante para alertar os satélites sobre partículas carregadas que vêm em direção à Terra e que podem danificar os satélites. Grandes explosões interferem também nas comunicações provocando blackouts e interferindo nos sinais de GPS.
Neusa
Tópicos: Clima, Curiosidades, Geral, Infra-estrutura, Pesquisas |

Neusa Paes Leme,